O que a Amazônia, inflação e comida no prato têm em comum?

De acordo com o IBGE, em 2020, enquanto a variação acumulada ao ano no índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) foi de 0,7% no índice geral, a variação nos preços dos alimentos e bebidas no mesmo período foi de 4,91%. O arroz aumentou quase 20%, já o feijão preto teve alta que se aproximou dos 30%. Já em maio de 2021, a variação no IPCA mostrou uma inflação de 8,06% em apenas um ano, sendo esta a maior taxa registrada no país nos últimos 25 anos.

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A desvalorização do real e a inflação têm um impacto severo na economia do Brasil, que se mostra devastador na mesa dos brasileiros: o país, que há anos tinha conseguido sair do Mapa da Fome, em 2021 voltou a fazer parte dele, segundo relatório da ONU. Mesmo sendo um dos maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo.

A isso soma-se o fato de que a Amazônia é uma grande reguladora do equilíbrio hídrico, sendo território da maior bacia hidrográfica com o maior volume de água doce do mundo, estando nela quatro dos dez maiores rios do planeta.

A Amazônia, portanto, tem grande papel não só no ciclo do carbono, mas também na regulação dos ciclos de chuva, com impacto que transcende suas fronteiras e atinge não só o resto do Brasil, mas também regiões de todo o mundo.

Assim, o desmatamento da Floresta Amazônica causa uma ruptura do ciclo hídrico, o que causa estiagens, que, por sua vez, são responsáveis pelas quebras de safras com as quais o Brasil vem sofrendo.

Com mais desmatamento, há menos florestas e, por consequência direta, há menos chuvas no Brasil inteiro, o que leva a menos colheitas e, assim, menos comida no prato dos brasileiros.

Não só isso, mas há também diminuição das exportações do país e aumento dos preços dos alimentos no mercado interno. O contrário ocorre quando se preserva a floresta: há mais chuvas e, por conseguinte, mais alimentos para o mercado interno e para o externo, trazendo mais dólares para o Brasil e reduzindo a inflação.

É também preciso atentar-se para o fato de que as mudanças na pluviosidade da Amazônia reverberam também no aumento das faturas de energia elétrica, já que há menos água para a indústria hidrelétricas. Com a diminuição do potencial hidráulico, torna-se necessário suplementar o fornecimento de energia com as usinas termelétricas, que não só é mais cara, mas também é mais prejudicial ao meio ambiente. 

Dessa forma, é necessário fomentar iniciativas que busquem reduzir o desmatamento e a exploração ilegal da Amazônia – que só gera lucro para os exploradores ilegais, não criando retorno para o país –, e as que promovem o reflorestamento.

Ao invés de permitir que as iniciativas ilegais permaneçam na Amazônia e que se perpetue seu desmatamento de forma impune, existem maneiras de recuperar a Floresta e, simultaneamente, impulsionar a economia da região, aumentar a produção de gêneros agrícolas, gerar empregos e renda para sua população, e diminuir a inflação. Tudo isso a partir de iniciativas que utilizem espaços já desmatados e abandonados ou subutilizados – área equivalente a mais de 70 milhões de hectares.

O reflorestamento (ou o rematamento) dessas áreas diz respeito a duas atividades não só benéficas numa perspectiva ecológica, mas também numa econômica e social, tendo em vista o potencial de rentabilidade e de geração de empregos e de alimento. Essas atividades são a restauração da vegetação nativa e a recuperação de áreas degradadas. A primeira possibilita a regulação climática, protege a flora e a fauna em toda sua diversidade, captura carbono – o que gera créditos mais lucrativos que os créditos de carbono convencionais – e permite que o ciclo hídrico seja regularizado. A segunda tem a potencialidade de aumentar a participação do Brasil no mercado dos produtos da floresta, pois possibilita a produção de peixes, madeira, óleos e frutos, de forma compatível com a conservação da floresta, além de criar empregos, sobretudo para as populações jovens da região.

O que é ainda melhor é que já existem iniciativas que utilizam o rematamento em diversos estados da Amazônia Legal, como a Belterra Agrofloresta (PA), o Café Apuí (AM), a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (PA), a Floresta S.A. (RR), o Projeto Reca (RO) e a Regenera (RR). Ou seja, esse sistema funciona, basta apenas criar formas de incentivar novas iniciativas como estas.

É dessa forma que salvar a Amazônia é também reduzir a inflação e botar comida nos pratos dos brasileiros: através da inovação e do desenvolvimento econômico sustentável, é possível reequilibrar os ciclos hídricos da região e do Brasil, gerando mais produção de alimentos para os mercados internos e externos.

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